Graça [Eucanaã Ferraz]
Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,
quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens
e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti
A vós que me despejastes,
nesta loucura sem telhas
e neste chão de desastres,
acaso devo ajoelhar-me
e bendizer as cadeias?
E ser aquele que acata
as ordens e ser aquele
apaziguado e cordato
preso às aranhas e às teias.
Levando o “sim” em uma das mãos
e o “não” noutra, rastejante
aos senhores da ocasião e da guerra
ser no chão,
o inseto e sua caverna?
Corrente serei
no recuo das águas.
Resina aos frutos do exílio.
Espúrio entre as bodas.
Resíduo.
Até poder elevar-me
com a força de outras asas,
para os meus próprios lugares.
A vós que me despejastes,
nesta loucura sem telhas
e neste chão de desastres,
com a resistência das penas
aceitarei o combate.

A noite ensina as trelas
e a perceber escuras
fragrâncias.
Quem aprende na noite
sabe os seres. E tudo
o que ela veda.
Saber é ver
mais cedo.
Além, o desapego
não se contém, vivendo.
Se more o sol, o grão
vai perecendo cego
Viver é estar à frente
da noite. Mesmo dentro.
(Palavras de Serafim n’A idade da Aurora)
Todas as minhas raízes
estão contigo.
Que a fome, a sede
se renovem.
E sejamos tão antigos
no amor e novos
junto aos meses.
Sim, o pátio dos meses.
O ar já não pousa.
Sobre as coisas humanas.
O fusível do ar.
O que está morto
está morto
está morto.
Mas todas as minhas raízes
estão contigo.
As flores que nunca morrem
são essas que em ti se movem.
Todas as minhas raízes,
as minhas raizes.
Até as mais aéreas
(Árvore do mundo)
Compreendes os rios
que te falam
ao ouvido, bruscamente
porque algo quer
adormecer em ti e neles,
algo sobe à tona
entre peixes e palavras,
algo nos faz
da mesma natureza
de funduras
e correntezas.
Compreendes os rios
porque compreendes
demasiado os homens,
mas antes compreendes
a ti mesmo no desamparo
humano, a dinastia lenta
de espumas, realezas.
E é puro desamparo
de quem sofrendo, existe
ou a existir, protrai
a dor de haver mundo.

Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir. Ir com os rios,
onda a onda.
Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.
E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros.
Carlos Nejar