Saturday, November 12, 2005

Graça [Eucanaã Ferraz]


Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti


Saturday, October 08, 2005

Escritos com o corpo [João Cabral, Serial]

I

Ela tem tal composição
e bem entramada sintaxe
que só se pode apreendê-la
em conjunto, nunca em detalhe.

Não se vê nenhum termo, nela,
em que a atenção mais se retarde,
e que, por mais significante,
possua, exclusivo, sua chave.

Nem é possível dividi-la,
como a uma sentença, em partes;
menos, do que nela é sentido,
se conseguir uma paráfrase.

E assim como, apenas completa,
ela é capaz de revelar-se,
apenas um corpo completo
tem, de apreendê-la, faculdade.

Apenas um corpo completo
e sem dividir-se em análise
será capaz do corpo a corpo
necessário a que, sem desfalque,

queira prender todos os temas
que pode haver no corpo frase:
que ela, ainda sem se decompor,
revela então, em intensidade.

II

De longe como Mondrians
em reproduções de revista
ela só mostra a indiferente
perfeição da geometria.

Porém de perto, o original
do que era antes correção fria,
sem que a câmara da distância
e suas lentes interfiram,

porém de perto, ao olho perto,
sem intermediárias retinas,
de perto, quando o olho é tato,
ao olho imediato em cima,

se descobre que existe nela
certa insuspeitada energia
que aparece nos Mondrians
se vistos na pintura viva.

E que porém um Mondrian
num ponto se diferencia:
em que nela essa vibração,
que era de longe impercebida,

pode abrir mão da cor acesa
sem que um Mondrian não vibra,
e vibrar com a textura em branco
da pele, ou da tela, sadia.

III

Quando vestido unicamente
com a macieza nua dela,
não apenas sente despido:
sim, de uma forma mais completa.

Então, de fato, está despido,
senão dessa roupa que é ela.
Mas essa roupa nunca veste:
despe de uma outra mais interna.

É que o corpo quando se veste
de ela roupa, da seda ela,
nunca sente mais definido
como com as roupas de regra.

Sente ainda mais que despido:
pois a pele dele, secreta,
logo se esgarça, e eis que ele assume
a pele dela, que ela empresta.

Mas também a pele emprestada
dura bem pouco enquanto véstia:
com pouco, ela toda também,
já se esgarça, se desespessa,

até acabar por nada ter
nem de epiderme nem de seda:
e tudo acabe confundido,
nudez comum, sem mais fronteira.

IV

Está, hoje que não está
numa memória mais de fora.
De fora: como se estivesse
num tipo externo de memória.

Numa memória para o corpo
externa ao corpo, como bolsa,
Que como bolsa, a certos gestos,
o corpo que a leva abalroa.

Memória exterior ao corpo
e não da que de dentro aflora;
E que, feita que é para o corpo,
carrega presenças corpóreas.

Pois nessa memória é que ela,
inesperada se incorpora:
na presença, coisa, volume,
imediata ao corpo, sólida,

e que ora é volume maciço,
entre os braços, neles envolta,
e que ora é volume vazio,
que envolve o corpo, ou o acoita:

como o de uma coisa maciça
que ao mesmo tempo fosse oca,
que o corpo teve, onde já esteve,
e onde o ter e o estar igual fora.

Pus o meu sonho num navio

Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
depois abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar.

Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre dos meus dedos
colore as areias desertas

O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho dentro de um navio...

Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.

Depois, tudo estará perfeito:
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.

Friday, September 09, 2005

Aos senhores da ocasião e da guerra (Carlos Nejar)












A vós que me despejastes,

nesta loucura sem telhas

e neste chão de desastres,

acaso devo ajoelhar-me

e bendizer as cadeias?

E ser aquele que acata

as ordens e ser aquele

apaziguado e cordato

preso às aranhas e às teias.

Levando o “sim” em uma das mãos

e o “não” noutra, rastejante

aos senhores da ocasião e da guerra

ser no chão,

o inseto e sua caverna?

Corrente serei

no recuo das águas.

Resina aos frutos do exílio.

Espúrio entre as bodas.

Resíduo.

Até poder elevar-me

com a força de outras asas,

para os meus próprios lugares.

A vós que me despejastes,

nesta loucura sem telhas

e neste chão de desastres,

com a resistência das penas

aceitarei o combate.

(Danações)

Cântico (Carlos Nejar)

Limarás tua esperança
até que a mó se desgaste;
mesmo sem mó, limarás
contra a sorte e o desespero.

Até que tudo te seja
mais doloroso e profundo.
Limarás sem mãos ou braços,
com o coração resoluto.

Conhecerás a esperança,
após a morte de tudo.

Lua sob a Terra (Carlos Nejar)


A noite ensina as trelas

e a perceber escuras

fragrâncias.

Quem aprende na noite

sabe os seres. E tudo

o que ela veda.

Saber é ver

mais cedo.

Além, o desapego

não se contém, vivendo.

Se more o sol, o grão

vai perecendo cego


Viver é estar à frente

da noite. Mesmo dentro.

(Palavras de Serafim n’A idade da Aurora)

Wednesday, September 07, 2005

Aqui ficam as coisas, X (Carlos Nejar)

Todas as minhas raízes

estão contigo.

Que a fome, a sede

se renovem.

E sejamos tão antigos

no amor e novos

junto aos meses.

Sim, o pátio dos meses.

O ar já não pousa.

Sobre as coisas humanas.

O fusível do ar.

O que está morto

está morto

está morto.

Mas todas as minhas raízes

estão contigo.

As flores que nunca morrem

são essas que em ti se movem.

Todas as minhas raízes,

as minhas raizes.

Até as mais aéreas

(Árvore do mundo)

Friday, September 02, 2005

Compreendes os Rios (Carlos Nejar)

Compreendes os rios
que te falam
ao ouvido, bruscamente
porque algo quer
adormecer em ti e neles,
algo sobe à tona
entre peixes e palavras,
algo nos faz
da mesma natureza
de funduras
e correntezas.

Compreendes os rios
porque compreendes
demasiado os homens,
mas antes compreendes
a ti mesmo no desamparo
humano, a dinastia lenta
de espumas, realezas.
E é puro desamparo
de quem sofrendo, existe
ou a existir, protrai
a dor de haver mundo.


Wednesday, August 31, 2005

Aqui ficam as coisas, XI (Carlos Nejar)


Nossa sabedoria é a dos rios.
Não temos outra.
Persistir. Ir com os rios,
onda a onda.

Os peixes cruzarão nossos rostos vazios.
Intactos passaremos sob a correnteza
feita por nós e o nosso desespero.
Passaremos límpidos.

E nos moveremos,
rio dentro do rio,
corpo dentro do corpo,
como antigos veleiros.

Carlos Nejar